João Carlos Gomes escreve artigo na Gazeta do Povo sobre o destino internacional da Universidade.

    Confira abaixo o artigo escrito por João Carlos Gomes, ao jornal Gazeta do Povo.

     

    O DESTINO INTERNACIONAL DE NOSSAS UNIVERSIDADES

     

    João Carlos Gomes

     

    Há uma identificação muito grande entre o Brasil e a Europa, pois em boa parte somos produto das imigrações do Velho Continente. Assim, trazemos uma memória familiar daquelas regiões e temos uma tendência a tentar resgatar estas raízes. Este fator é de grande importância no âmbito do ensino superior. Num momento em que da universidade é cobrada uma projeção internacional, seja na participação de eventos seja na publicação ou na pós-graduação, faz-se necessário fortalecer os vínculos com a Europa por meio de nossas instituições universitárias.

     

     

    Foi neste sentido que uma comitiva de reitores das universidades estaduais e municipais de todo o Brasil fez uma viagem, entre 22 de junho e 4 de julho, às principais universidades italianas. Dentro da Comunidade Européia, a Itália liderou um processo de unificação das ofertas de ensino superior, conhecido como Processo de Bolonha, um movimento amplo de harmonização do sistema universitário europeu. A unificação daquele continente não teria se efetivado se não tivesse havido uma calibragem dos currículos universitários dos diversos países da Europa, que hoje buscam se aproximar do Brasil.

     

     

    Esta aproximação pode trazer grandes benefícios para o país, mas para isso precisamos vencer alguns obstáculos. Antes de mais nada, é preciso uma compreensão bastante clara da natureza desta aproximação. Ela não deve ser entendida como de mão única, apenas da Europa para o Brasil, o que poderia dar um aspecto extremamente negativo a todo o processo. O sistema universitário brasileiro é sólido, tem uma produção de saber muito rica, está extremamente conectado com a realidade regional, e se encontra em regiões em que a biodiversidade é propícia para novas descobertas – ou seja, tem todas as condições para ocupar um papel de protagonista internacional. Assim, esta aproximação deve se dar no âmbito da cooperação mútua, sem paternalismos nem subserviências culturais ou econômicas. Deve ser uma relação de igual para igual – é claro que respeitando e valorizando as diferenças. Não podemos aceitar que sejamos apenas palco de uma oferta – com finalidades econômicas – de ensino superior internacional, inclusive porque no Brasil há um ensino superior de alta qualidade.

     

     

    Assim, o relacionamento com as instituições européias e de outros países deve se pautar nos objetivos centrais da universidade. Segundo Boaventura de Sousa Santos, “só há universidade quando há formação graduada e pós-graduada, pesquisa e extensão”. Esta deve ser a base dos relacionamentos internacionais das instituições, e não apenas a oferta de cursos.

     

     

    Em nossa visita às universidades italianas, sentimos um interesse acadêmico muito grande em um relacionamento neste nível pleno. As universidades brasileiras podem contribuir muito com o sistema europeu, tanto na pesquisa quanto na pós-graduação, podendo vir a se tornar um modelo na extensão, área ainda incipiente na Europa.

     

     

    Mas há entraves a serem vencidos. A marca do ensino superior brasileiro é a diversidade. Reside aí nossa riqueza enquanto sistema. Mas isso limita muito a participação de alunos de experiências formadoras em outras instituições. Se internamente nossa pós-graduação se encontra estruturada em bases universais, ainda não reconhecemos títulos obtidos fora do país. Já no âmbito da graduação, há praticamente uma impossibilidade de validação de créditos. Mesmo entre instituições vizinhas, pertencentes ao mesmo sistema, dificilmente se reconhecem os créditos externos. Internacionalmente, isso é mais difícil ainda. O que faz com que a graduação fique muito circunscrita ao âmbito regional, num movimento contrário ao processo de integração que se vive no mundo todo.

     

     

    A exemplo do que foi feito na Europa, a partir do Processo de Bolonha, é preciso harmonizar os conteúdos da graduação, permitindo uma equivalência natural entre nossos cursos, tendo como norte um padrão internacional. Temos que criar um espaço compartilhado de educação superior regional, nacional, para depois tentar criar este espaço internacional. Universalizar nossos currículos é um trabalho que deve ser priorizado pelos órgãos centrais e descentralizados de ensino superior, mas isso tem que ser feito com todo o cuidado, valorizando a inserção regional, o saber local.

     

     

    Neste contexto, a extensão e a pesquisa terão um papel importante. Ao mesmo tempo em que se funda uma base harmônica de conteúdos, que sirva para o país e para o exterior, criando canais de diálogo com o conhecimento global, é necessário abrir mais nossos cursos para as realidades regionais – para isso, acreditamos na necessidade de flexibilização curricular, permitindo uma maior liberdade para a execução de atividades de pesquisa e extensão como base curricular. Trata-se portanto de uma reforma do ensino superior que deve tomar um caminho duplo: a abertura para o saber internacional e também a produção de conhecimento baseada nos problemas locais.

     

     

    Em nosso entendimento, o primeiro passo é desengessar nossos currículos, permitindo a mobilidade acadêmica. Sem a participação de professores e alunos em todos os níveis da vida universitária de outras regiões e outros países não se conseguirá uma projeção de nossos saberes na orquestra do conhecimento internacional.

     

    João Carlos Gomes é reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa e Vice-Presidente da Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais – ABRUEM.

     

     

    Clique aqui para conferir o artigo no site da Gazeta do Povo.