Editoras universitárias das estaduais paulistas ofertarão livros em formato digital.

     

    Cega de nascimento, Fabiana Bonilha foi a primeira pessoa com essa limitação a defender o doutorado no Instituto de Artes (IA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No longo caminho percorrido, os obstáculos sempre estiveram presentes: para cursar o ensino fundamental e médio, sua mãe transcrevia todos os livros didáticos para o braile. "O processo era bem manual, quase artesanal", descreve Fabiana. Essa realidade pode ser passado para novos alunos que têm a mesma limitação, já que a partir de 2011, por determinação do Ministério da Educação (MEC), as editoras que participarem de licitação de livros didáticos no Governo Federal deverão adaptar seu conteúdo no formato acessível aos deficientes. No mesmo caminho da determinação do MEC, a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo convocou uma reunião, em janeiro de 2010, com as editoras das Universidades Estaduais Paulistas - USP, UNESP e Unicamp - e com a Imprensa Oficial para discutir a acessibilidade de todos os livros publicados pelas editoras universitárias.

     

    Responsável pelo projeto, Naziberto Lopes de Oliveira, da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que também é deficiente visual, se diz entusiasmado. "Os meios eletrônicos ampliam a limitação física do papel impresso". No último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2000, foram contabilizados 25 milhões de pessoas com deficiência, sendo que 48% com deficiência visual. De acordo com Oliveira, entende-se por "acessibilidade" a garantia à leitura desde quem tem limitações físicas até limitações intelectuais. Uma pessoa, por exemplo, que não sabe ler, deverá ter acesso ao livro no formato de áudio.

     

    Para atingir tais objetivos, as editoras das universidades estaduais paulistas devem trabalhar com o sistema Daisy (sigla do termo em inglês Digital Accessible Information System) - padrão internacional criado em 1998 para dar base ao desenvolvimento de softwares que permitam interação com o conteúdo e uma aproximação real do livro. Por intermédio das tecnologias desenvolvidas a partir do protocolo Daisy é possível ouvir, virar a página com um comendo de voz, fazer comentários e marcar a página em que a leitura parou. Para Oliveira, trata-se de um benefício, também, as pessoas amputadas, com deficiência visual (parcial e total) e os analfabetos. "A idéia vai além da distribuição de livros em CD nas instituições de ensino. A proposta é que uma pessoa com deficiência tenha acesso a um livro nos mesmos lugares. Tenha acesso nas bibliotecas públicas, nas livrarias", defende.

     

    As editoras das estaduais paulistas estão animadas. Ricardo Lima, coordenador editorial da Edunicamp; Anderson Massahito Nobara, editor executivo da Edunesp, e Plínio Martins Filho, diretor-presidente da Edusp, se dizem favoráveis à iniciativa. Eles estiveram presentes na reunião do início do ano e aguardam a capacitação dos funcionários para lidar com o sistema Daisy, o que deve acontecer até o final deste mês.

     

    "Ter instrumentos que permitam o acesso ao livro é uma necessidade e as editoras têm que se adaptar", alerta Lima. Também atento às mudanças, Nobara acredita que é preciso haver uma ampla divulgação para que as editoras sejam adaptadas o mais rápido possível. O diretor-presidente da Edusp também compartilha da ideia e se diz preparado para iniciar a capacitação com os funcionários.

     

    O software para as editoras das estaduais paulistas, que segue o protocolo Daisy, foi desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um receio das editoras universitárias é que o conteúdo seja disperso e copiado na internet de maneira imprópria e, também, que o conteúdo possa representar fielmente a versão impressa, com riqueza de detalhes e descrição de imagens e tabelas. Para proteção contra pirataria de conteúdo, a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência firmou um convênio com o Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) - da Universidade de São Paulo (USP). A previsão é que a proteção seja finalizada em outubro e a partir daí começam os contatos diretos com as editoras.

     

    A plataforma exige uma editoração para a versão digital. A conversão do conteúdo é feita em 80% pela Plataforma Daisy e 20% por um profissional, que será responsável pela conversão para o conteúdo digitalizado. A previsão é que no ano que vem as editoras das universidades estaduais paulistas já disponibilizem os livros no formato digital acessível.

     

    A Plataforma Daisy

     

    O sistema Daisy foi criado em 1998 pelo grupo Consórcio Daisy, que trabalha com a digitalização de livros para possibilitar a leitura de quem tem necessidades especiais desde meados da década de 1990. Trata-se de uma série de recomendações para criação de soluções tecnológicas para a geração de livros em formato digital acessível, que permitem a reprodução audível utilizando gravação ou síntese de fala, a navegação pelo texto, a reprodução sincronizada dos textos selecionados, a ampliação de caracteres e a conversão para o braile. Para saber mais, visite o site (em inglês): http://www.daisy.org/