Pesquisadores concluem Censo da Vida Marinha.


     

    Cientistas brasileiros participam, entre os dias 4 e 6 de outubro, em Londres, do encerramento mundial do programa Censo da Vida Marinha (Census of Marine Life). O evento inicia no dia 4, com coletiva de imprensa transmitida ao vivo pelo (www.coml.org) a partir das 12h30, horário de Londres (16h30 de Brasília). Na ocasião, pesquisadores de todo mundo irão apresentar e debater a relevância das realizações globais do programa para o conhecimento da diversidade marinha, sua utilização e sua preservação.

     

    Nos dois dias que se seguem serão apresentados os resultados e contribuições específicas dos 17 projetos apoiados pelo programa: os quais estudaram, o que viveu, o que vive e o que viverá no futuro em inúmeros ambientes marinhos do planeta desde costeiros até abissais, desde tropicais até polares. Cientistas brasileiros têm participado ativamente em vários destes projetos, incluindo o Mar-Eco. Ele está voltado ao estudo dos padrões e processos da diversidade associada à Cordilheira Meso-oceânica do Atlântico, um dos ambientes profundos mais remotos da Terra.

     

    Essa cadeia de montanhas submarinas se estende por 14 mil quilômetros, desde a Islândia até a Antártica, e se elevam a dois mil metros de altura do assoalho oceânico no centro do Atlântico. “Além de exercer forte influência nos padrões de circulação e na distribuição da vida marinha profunda, esta cadeia de montanhas submersas constitui uma das feições mais proeminentes e menos conhecidas do fundo oceânico”, explica o Angel Perez, pesquisador do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar), da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina.

     

    O projeto, existente desde 2001, tem se concentrado na exploração da porção da cadeia de montanhas situada entre a Islândia e o Arquipélago dos Açores. Perez integrou-se ao grupo que lidera o Mar-Eco em 2006, com o desafio de expandir esses estudos para o Atlântico Sul. “Trata-se de uma iniciativa inédita para o Atlântico Sul e consiste no levantamento da biodiversidade e da distribuição de organismos dos ecossistemas profundos associados às estruturas geológicas da cadeia de montanhas meso-oceânicas”, aponta. "É um oceano novo. Geologicamente foi o último a surgir na separação dos continentes." Por isso, ele espera encontrar variações de espécies em relação às catalogadas no oceano profundo do Atlântico onde o trabalho está praticamente encerrado.

     

    O programa Mar-Eco Atlântico Sul é formado por uma equipe de cientistas da América do Sul e África e é capitaneada pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), de Santa Catarina. Esta equipe tem, durante os últimos três anos, colaborado para o desenvolvimento de uma estratégia para a amostragem da biodiversidade do cume sul do Médio-Atlântico que compreende desde bactérias até as baleias. “Trata-se de uma iniciativa inédita para o Atlântico Sul e consiste no levantamento da biodiversidade e da distribuição de organismos dos ecossistemas profundos associados às estruturas geológicas da cadeia de montanhas meso-oceânicas”, descreve o pesquisador.

     

    Em novembro de 2009 esta estratégia foi colocada em prática pela primeira vez como fruto de uma parceria estabelecida entre o Censo da Vida Marinha, o projeto Mar-Eco e o Instituto Shirshov de Oceanologia (Academia de Ciências, Rússia). Durante 34 dias, cientistas brasileiros, uruguaios, neozelandeses e russos estiveram embarcados no navio oceanográfico russo Akademik Yoffe, no que foi a primeira viagem de estudos sobre a vida na cordilheira meso-oceânica do Atlântico Sul.

     

    Na ocasião eles percorreram cerca de 4,3 mil quilômetros levantando dados físico-químicos, peixes, microorganismos e invertebrados associados ao fundo do mar amostrados em vinte e uma estações de coleta dispostas ao longo da cordilheira, em profundidades que variavam de mil a três mil metros.

     

    Em cada uma delas foi feita prospecção com draga de fundo para capturar organismos que vivem junto ao fundo, além de amostras de sedimentos. Também foram lançadas redes com o objetivo de capturar e trazer à superfície animais que vivem em suspensão organismos, o zooplâncton, nas camadas profundas de água. Ao longo do trajeto do navio também foram registrados dados contínuos sobre os mamíferos marinhos como baleias e golfinhos habitantes das áreas oceânicas.

     

    Todo o material foi catalogado e está sendo estudado em terra para avaliação do que poderá, literalmente, trazer a tona inúmeras descobertas. Participam deste trabalho mais quatro professores pesquisadores do CTTMar/Univali além de cientistas de outras 12 instituições de pesquisa do Brasil, Uruguai, Rússia, África do Sul, Noruega e Nova Zelândia.

     

    “Trata-se de um projeto de grande relevância técnico-científica, cujas descobertas contribuirão significativamente para o conhecimento da biodiversidade marinha e conseqüentemente para os avanços na área. Temos acompanhado de forma muito próxima este importante projeto e é, para a instituição, motivo de orgulho e satisfação termos nossos pesquisadores envolvidos em projetos desta magnitude”, resume Valdir Cechinel Filho, Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-Graduação, Extensão e Cultura (ProPPEC) da Univali.

     

    Pesquisa

     

    Os objetivos da pesquisa levam em conta a necessidade de suprir a escassez de conhecimento da biodiversidade de águas profundas, ou seja, o que existe submerso no centro do Atlântico Sul: “Este conhecimento é importante uma vez que as áreas costeiras são mais antigas e podem servir como fontes de espécies colonizadoras para os habitats recentemente formados pela separação das placas tectônicas que ocorrem continuamente nestas cadeias de montanhas”, relaciona Angel Perez.

     

    Angel destaca a importância de algumas estruturas geológicas associadas à cadeia central que não existem no Atlântico Norte: “A Elevação do Rio Grande no lado oeste e a Cadeia Walvis no lado leste do Atlântico Sul são cadeias de montanhas perpendiculares que ligam o centro do oceano até a costa, tanto no litoral brasileiro como na costa da África, e que podem ter importante papel na dispersão da vida marinha profunda”, argumenta.

     

    Outro ponto importante, segundo o pesquisador, é o fato do Atlântico Sul ser o último oceano a surgir na separação dos continentes conectando esse oceano a outros três já existentes: o Índico, o Antártico e o Pacífico. O projeto Mar-Eco Atlântico Sul deve ser um dos muitos que terão continuidade na segunda fase do Censo da Vida Marinha.