Discurso do Professor Julio Cezar Durigan, Reitor da UNESP, anfitrião do 57º Fórum Nacional de Reitores da ABRUEM

    Ao iniciar minha fala quero parabenizar aos organizadores ao mesmo tempo que ratifico a importância deste evento que vem ao encontro da valorização da universidade em sua atividade fim, visto que ela foi originalmente criada e existe para produzir conhecimento, gerar pensamento crítico, organizar e articular os saberes, formar ( na melhor acepção da palavra) pessoas, profissionais e lideranças intelectuais. Neste momento, não posso deixar de me referir e de ressaltar a importância da Universidade  dos seus Educadores, e dos livros. Constituem a casa, os protagonistas e as melhores ferramentas para o trabalho do nosso  desenvolvimento intelectual, moral e espiritual.

    A universidade não deve deixar, jamais, de se constituir em nicho fecundo para o desenvolvimento, discussão, apoio ou contraposição de idéias.

    A instituição universitária, face à sua natureza, possui luz própria e, justamente por isso, pode operar com liberdade em relação às circunstancias histórico-sociais que lhe estão na base, apesar dos problemas do dia-a-dia, dos entraves e da burocracia administrativa, da instabilidade gerada pela dependência externa de recursos, do impacto das novidades tecnológicas sucessivas, das incertezas e das inseguranças. Vários são os fatores que podem bloquear a interação dinâmica entre os indivíduos, freiam a criatividade e reforçam rotinas improdutivas em nome da necessidade de ser pragmático e de planejar sem perder de vista o cálculo e os interesses de curto prazo, fazendo com que as organizações se desencantem e passem a registrar “déficits” de sentido.

    As idéias e seus contrapostos, características marcantes de uma universidade pública como as nossas, devem ser resguardadas por uma das suas maiores riquezas: A sua autonomia, ou seja, a liberdade de fazer opções e tomar decisões. Uma Universidade é autônoma não quando se solta do Estado ou da sociedade, mas quando incorpora a si-como questões suas – as demandas, expectativas e pressões da sociedade e do Estado, sem ser tolhida por elas, mas, ao contrário, sabendo valer-se delas para se afirmar como instituição. Não se trata, portanto, nem de auto-suficiência e nem de fechamento, mas de uma radical e específica forma de se abrir para o exterior. Trata-se de propor modificações benéficas para a sociedade, ao mesmo tempo em que se aceita suas boas influencias, num salutar processo de retroalimentação constante.

    Eventos como este permitem que fujamos um pouco do imenso aparato burocrático em que a universidade está envolvida para mergulharmos, de forma profícua, em temas de real interesse acadêmico. Nas últimas décadas, ao lado das tentativas de modernização e racionalização, foi sendo sedimentada nas universidades uma cultura política antiga e problemática com várias vertentes e/ou ingredientes, destacando-se o cartorialismo, o corporativismo, o patrimonialismo, o clientelismo e o assistencialismo. A política acadêmica arquitetada e construída foi sendo negativamente impregnada por valores e concepções que tiveram reflexos diretos ou indiretos no trabalho intelectual e científico.

    Para romper com tal situação, não bastam apenas  a indignação e a resistência. É Necessário criar condições para sua superação, transformando as inquietações em iniciativas renovadoras e ações transformadoras. Significa reafirmar a função sociocultural da universidade, significa resgatar uma cultura que encarne os valores éticos, o rigor científico, a valorização da docência e o pluralismo de concepções. Significam ter as Universidades como instrumentos fundamentais de interação com a sociedade, de democratização do conhecimento e de valorização das competências.

    Neste momento também não posso deixar de enfatizar a importância do educador, face aos grandes desafios que continuarão enfrentando nos próximos anos. Segundo o Apostolo Paulo, “para adentrar ao reino dos céus é necessário que se leve o paraíso na alma”. Gostaria de complementar esta máxima dizendo que para ser educador também.

    Segundo  o Prof. Rubem Alves, o Criador cometeu um erro ( ou nos pregou uma peça) ao nos criar: deu-nos um DNA incompleto. Ao contrário dos animais e plantas que são o que são e fazem o que fazem há milhões de anos. Porque estão prontos, não precisam pensar e não podem  ser educados. Sua programação, o tal de DNA, já nasce pronta, seus corpos já nascem sabendo o que precisam saber para viver. Pelo fato do nosso DNA ser incompleto somos condenados a pensar. Pensar para que?  Para inventar a vida. Inventamos poesia, culinária, música. ciência, arquitetura, jardins, religiões, esses mundos  a que se dá o nome de cultura.

          Desta forma o iminente professor não nos deixa esquecer que as pessoas estão sempre mudando. Os educadores existem e a educação acontece enquanto as pessoas vão mudando, para que não deixem de mudar. Se as pessoas estivessem prontas não haveria lugar para a educação. Enfim, uma escola é um caldeirão de bruxas que o educador vai mexendo para não deixar que as pessoas se igualem e para fazer outros mundos nascerem.

     A educação tem a ver com uma vida que está além da nossa própria vida, com um tempo que está além do nosso próprio tempo e com um mundo que está além do nosso próprio mundo. Queremos que os novos, que vem para esta nova vida, para este novo tempo e para este novo mundo se orgulhem do legado que para eles deixarmos. Em síntese, este é o trabalho do educador.

    O grande desafio que temos frente aos nossos próprios filhos é o de torná-los mais educados e melhores que nós.

    Costumo dizer para os meus alunos que um grande educador precisa nascer pelo menos duas vezes. Uma do ventre da mãe, outra de dentro de si mesmo. Nesta segunda vez ele nasce para uma vida de desafios, fascinante as vezes, sofrida em outras, porém sempre muito nobre e voltada ao engrandecimento do próximo. Também, precisamos desenvolver, como educador, dois tipos de visão; a dos olhos e a do coração. Da mesma forma, a segunda não é tão simples de ser desenvolvida, pois depende do segundo nascimento e é como uma música que vem de dentro, alguns a ouvem e a apreciam enquanto outros jamais conseguirão ouvi-la.

    Desta forma, o trabalho educacional ligado a assuntos puramente técnicos deve ser visto com os olhos da razão; as relações pessoais, as aflições, as atenções, os exemplos, as exaltações, a ética, enfim a formação complementar e ampla do ser humano deve ser vista com os olhos do coração.

    Devemos buscar aprimorar a nossa competência para o trabalho técnico e suas soluções, ao mesmo tempo em que deve descortinar-se a capacidade para o diálogo, o entendimento, a orientação e a compreensão para com os problemas e virtudes do ser humano.

    É possível concluirmos disso tudo que o sucesso do educador é proporcional à sua capacidade de amar: ao próximo, ao seu trabalho e à sua instituição. Também não podemos nos esquecer de dizer que é fundamentalmente dependente dos livros, nos quais aprende e pelos quais ensina. É um fenômeno maravilhoso que, interpretado por um agrônomo como eu é, ao mesmo tempo, a semente, o fertilizante, o corretivo, a irrigação, o sol, enfim, é a única e garantida chance de colheita. Segundo Cícero, grande orador e senador romano: “Ut sementem feceris, Ita Metes”,- “Como tiveres semeado, assim colherás”.

    Nas Universidades é possível contrabalancear as características do sábio e do cientista. Só os livros fazem do silêncio o tempo da escuta ao mesmo tempo em que o abominam como espaço da ignorância.

    Costumo dizer que a produção do conhecimento constitue o diferencial entre uma escola de repasses e um centro formador. Entre a superficialidade  do conhecer e a profundidade do saber. Entre a instrução para o desenvolvimento de uma tarefa e a formação para a consecução de uma vida produtiva. Entre o professor que apenas recebe o seu salário e  aquele que se preocupa em melhorar a vida das pessoas.

    É preciso, urgentemente, resgatarmos e reafirmarmos três pré-requesitos fundamentais: a esperança na educação, a confiança nos educadores e a garantia de produção das boas sementes (livros) para os semeadores.

    Parabenizo a todos que trabalharam na preparação deste evento face a sua importância na vida das nossas universidades.

    Abraço a todos por intermédio da Profª Dra. Adélia Presidente da ABRUEM.

    Obrigado,

     

     

    Prof. Dr. JULIO CEZAR DURIGAN

     

    Reitor