Comunidade Kalunga tem seu primeiro filho na Universidade.

               Quem tem o sonho de ter acesso à universidade e fazer um curso superior sabe bem o que significa conquistar esse espaço. Para muitos brasileiros, esse sonho se torna difícil, seja pela falta de condição financeira ou por não residir onde possui uma instituição de ensino.

               Rosamilso Deltrude Moreira é um jovem de 20 anos que conseguiu chegar à universidade. Seria mais um caso normal de acesso ao ensino superior não fosse ele um kalunga. Morador da Fazenda Areia, no município de Monte Alegre de Goiás, no Nordeste do Estado, Rosamilso é o primeiro morador da Comunidade a chegar ao ensino superior.

              Há uma década, esse sonho era quase impossível de ser realizado para os jovens que moram no Kalunga, comunidade remanescente de quilombo situada entre serras nos municípios de Monte Alegre de Goiás, Teresina e Cavalcante, no Nordeste do Estado. A educação na Comunidade limita-se ao Ensino Fundamental, mas a criação da Universidade Estadual de Goiás (UEG) na cidade de Campos Belos, com uma proposta inclusiva, fez aflorar nos jovens da Comunidade o sonho de dias melhores.

             Rosamilso é exemplo de determinação e de superação. Com o sonho de fazer um curso superior, o jovem kalunga deixou seus pais e foi morar em Monte Alegre, onde fez o Ensino Médio e, logo depois, foi aprovado no Processo Seletivo da UEG de Campos Belos para o curso de Tecnologia em Agropecuária. Para sustentar os estudos, Rosamilso tem uma rotina diária de muito trabalho como servente de pedreiro. As dificuldades são muitas, mas ele não desiste. “Enfrento dificuldades financeiras para me manter no curso. Tem o transporte que é uma das dificuldades. Sempre tenho que tirar cópias. Tenho muitas despesas”, salienta o estudante. Ele diz que enfrenta sozinho essa batalha de ter que estudar e trabalhar morando longe de casa, mas não se dá por vencido ao imaginar que pode ter uma vida melhor e proporcionar isso também aos seus pais. “Tenho que ter um curso superior, um melhor salário e passar num concurso”, sonha. Mesmo querendo bater asas e conquistar seu espaço, Rosamilso não deixa de pensar na Comunidade Kalunga, onde nasceu. O estudante diz que gosta muito de animais e de plantas, por isso escolheu o curso de Tecnologia em Agropecuária e que pretende voltar um dia e colocar em prática o que aprendeu. O estudante credita aos pais a vitória. “Estou bastante alegre por ter conseguido vencer esta batalha. É também uma vitória de meus pais, que sempre lutaram pelos meus estudos. Estou muito feliz mesmo”, resume.

            Para o diretor da Unidade Universitária de Campos Belos, Rosolindo Neto de Souza Vila Real, a inclusão que a UEG proporciona a um jovem kalunga representa o papel da Universidade no contexto atual. “Sentimos que, ainda que em passos lentos, vamos caminhando na direção do cumprimento do papel do ensino superior colaborar com as populações historicamente relegadas”, destaca.

    Kalunga

             A Comunidade Kalunga tem origem no século XVIII, quando Bartolomeu Bueno e João Leite da Silva iniciaram a colonização na região de Goiás, que ficou conhecida como “minas dos Goyases” – nome de um povo indígena que vivia naquela região, onde havia muito ouro. Na língua banto, "kalunga" significa lugar sagrado, de proteção. E acredita-se que foi justamente para protegerem-se que os negros fugiram dos maus-tratos e da escravidão e formaram o quilombo nas serras entre os municípios de Monte Alegre, Teresina e Cavalcante, no Nordeste Goiano. Estima-se que atualmente vivam na Comunidade cerca de 4,5 mil pessoas.

              Por décadas, esse povo viveu isolado, só começando contato com outras pessoas no final da década de 1970, com a chegada de antropólogos, pesquisadores e comunicadores à região. O transporte ainda continua sendo uma barreira para os kalungas, com poucos carros, o que dificulta o acesso às cidades vizinhas.  Mas, aos poucos, os benefícios, como energia elétrica e escolas vão se tornando realidade no local. E os sonhos de terem uma vida melhor se reforçam a cada dia para muitos que ali residem e resistem.


    Importância da UEG

             O jovem kalunga Rosamilso se alegra em poder fazer um curso superior. Mas, se não fosse a presença da Universidade Estadual de Goiás na região, talvez esse sonho tão acalentado não tivesse se tornado realidade.

             Criada em 16 de abril de 1999, a UEG vem desempenhando papel de extrema importância no processo de inclusão e como fator de desenvolvimento para todas as regiões de Goiás. No início, pautou-se pela oferta de cursos de graduação regular e pela  formação de professores, através do Programa Universidade para os Trabalhadores da Educação, que transformou o quadro de 98% de professores do Estado que não possuíam curso superior em quase zero em uma década. Por ser multicampi, a Universidade também proporciona a milhares de jovens o acesso ao ensino superior. As necessidades do mercado goiano, em larga expansão, são atendidas à medida que as demandas são apresentadas.

             Seja no ensino, na pesquisa ou na extensão, a UEG se faz presente na vida do povo goiano e marca a última década como uma transformação positiva do ensino superior do Estado.